Treinadores para o Futuro
Inovar e formar jogadores adaptáveis
O basquetebol português necessita urgentemente de treinadores com uma mentalidade renovada, que valorizem a exploração e a inovação.
O Professor Jorge Araújo num dos seus últimos escritos desafia mesmo os treinadores a que : “ incentivem os seus jogadores a saírem da zona de conforto, assumindo riscos e experimentando abordagens diferentes.”
Nos últimos anos, a ENB tem promovido essa mudança, desafiando os treinadores a experimentar, errar, ajustar e criar automatismos eficazes através de um processo constante de tentativa e erro.
No minibásquete e Sub-14, fomentar o espírito inovador significa estimular soluções criativas, riscos calculados e respostas imprevisíveis às situações do jogo.
É fundamental desenvolver jogadores que não fiquem presos a padrões fixos, mas que integrem a imprevisibilidade e a adaptabilidade como parte essencial do seu ADN desportivo.
Formação do jogador do futuro: prioridades do jogo dinâmico e ataque vertical
A formação do jogador do futuro começa no minibasquete, com foco no desenvolvimento de competências ofensivas dinâmicas e eficazes.
O jovem atleta deve aprender a lançar sempre que estiver em posição favorável e sem oposição, penetrar com drible quando o lançamento não for possível e passar ao colega em melhor condição.
O objetivo é atacar o cesto de forma rápida, direta e com postura vertical, lendo o defensor e o jogo para criar vantagens.
No ataque dinâmico, o jogador precisa tomar decisões rápidas num espaço limitado, usando até dois dribles para finalizar a jogada.
A verticalidade obriga a defesa a esforços individuais e coletivos, como ajudas e rotações. O treinador tem papel crucial no apoio à tomada de decisão.
Este modelo valoriza o equilíbrio entre drible e passe, rompendo com o paradigma do “passa e corta”. O drible atrai defensores e cria espaços, enquanto o passe em movimento gera linhas de progressão dinâmicas, facilitando o avanço coletivo.
Formar jogadores egoístas na busca do cesto e generosos ao compartilhar a bola é fundamental. O 1x1 é essencial para superar o defensor, tanto com a bola quanto sem ela. O jogador com bola deve encestar ou assistir; o sem bola, criar vantagem para receber e atacar.
A abordagem tradicional do “passa e corta” não atende mais às exigências atuais. O foco deve estar no 1x1 e no “penetrar e passar” para um jogo vertical, ágil e criativo.
Jogadores sem bola devem ocupar espaços que dificultem as ajudas defensivas, facilitando o 1x1 do portador da bola. Assim, o drible cria vantagens e permite decisões ofensivas rápidas, com passes e finalizações oportunas.
Formar jogadores com essa mentalidade, que equilibrem egoísmo ofensivo e generosidade coletiva, é decisivo para o sucesso do jogo dinâmico e para o desenvolvimento do basquetebol português.
E porque não deixar de jogar 5 abertos ?
No minibasquete, jogar com cinco jogadores abertos é comum e eficaz, pois cria mais espaço, facilita o drible, a finalização e o jogo coletivo pelo “penetrar e passar”.
Essa abordagem reduz a dependência de jogadores fisicamente dominantes, garantindo participação ativa de todos.
Em seleções regionais, pode ser vantajoso incluir referências interiores (“4 around”), aproveitando jogadores com capacidade física e técnica para abrir espaços próximos ao aro.
O “4-1” ensina a ocupar o espaço interior, melhorando decisões em espaços reduzidos e a leitura do movimento da bola e dos defensores, enriquecendo o coletivo.
Entre os 11 e 12 anos, a formação deve evitar especialização precoce, oferecendo a todos base técnica e tática para driblar, passar, lançar e defender.
Contudo os jogadores altos, com maturação motora tardia, beneficiam de estímulos e momentos de jogo junto ao cesto para ganharem confiança.
Será sempre melhor fazer o mais fácil?
Ao introduzir um fundamento em qualquer categoria, o essencial é avaliar se ele trará benefícios ou prejuízos a curto, médio e longo prazo. Sempre que surge um problema, revela-se uma necessidade; a solução não está em eliminar o problema manipulando as regras, mas sim em encontrar uma resposta técnica adequada.
No minibásquete , o jogo de 1x1 é a base do ataque e um desafio a ser superado que exige o desenvolvimento de um conjunto de competências. Se um jogador não consegue resolver esse desafio e transforma o 1x1 num 2x2 para facilitar o duelo individual, não apenas deixa de desenvolver fundamentos individuais sólidos para resolver situações de 1x1, como os fundamentos que eventualmente adquire são frágeis.
Fugir dos problemas só cria um vazio que cresce até se tornar um enorme obstáculo, limitando severamente a evolução individual e coletiva.
Nesse contexto, surge o debate sobre quando introduzir o bloqueio direto (BD)? Não devemos cair no erro de achar que este debate está encerrado; é fundamental continuar refletindo e repensando o jogo.
Recentemente, Jota Cuspinera questionou: se o bloqueio direto facilita o jogo nas categorias de formação, por que ainda existe tanto debate sobre sua introdução? Será que o BD torna realmente as coisas mais fáceis? Para quem? Talvez para o ataque, sim, mas para a defesa certamente não.
O BD pode facilitar o ataque inicialmente porque a defesa não está habituada nem treinada para enfrentá-lo. Por isso, as equipas que o utilizam mais cedo ganham uma vantagem temporária, vantagem que desaparece assim que o bloqueio começa a ser treinado.
É consenso que, numa fase inicial, o BD facilita o ataque ao cesto para o jogador com bola. Mas, ao usar o bloqueio para evitar o problema do 1x1, estamos ignorando as necessidades reais do desenvolvimento do jogador.
Quanto à incerteza, embora o 1x1 seja exigente, o 2x2 com bloqueio direto é cognitivamente muito mais complexo. Ele oferece mais opções em termos de percepção e decisão, incluindo fundamentos que o 1x1 não tem — como o passe e a receção. A incerteza vem não só do adversário direto, mas também do colega e do defensor dele, o que torna o 2x2 um desafio tático e cognitivo maior.
Portanto, ao treinar o bloqueio direto, é essencial estar consciente dessas necessidades. Não acredito que facilitar o processo seja a melhor abordagem desde o início.
Se nos Sub 14 faz sentido o BD e os filmes do Torneio Iscar Masculino não mentem, já no minibasquete, o BD pode ser um facilitador tentador, mas eu o rejeito completamente, pois não ajuda a desenvolver jogadores melhores no 1x1, que é onde coloco o meu foco.
E se pensarmos que é possível melhorar individualmente mesmo com o BD, talvez o que falte sejam horas reais de prática, de experiência em dinâmicas e jogos. Sim, o BD é útil para trabalhar passes, conceitos táticos, enriquecer a defesa e forçar o ataque a criar novas soluções, mas representa a morte do 1x1 e da responsabilidade de querer melhorar sem depender do bloqueio.
Somando-se à sua complexidade cognitiva, creio que temos argumentos sólidos para defender sua não utilização no minibasquete:
1. Não é mais fácil, nem para a defesa, nem cognitivamente.
2. Facilita apenas no início, mas a médio prazo o preço a pagar será alto.
O problema é que essa dívida quase nunca é paga por quem a cria. Os “treinadores de deformação” geram dívidas que serão cobradas mais tarde — especialmente pelos próprios jogadores. Tudo isso pelo desejo de “fazer mais fácil”, por pressa, egoísmo, ou pelo simples querer aparecer. Nenhuma dessas motivações é válida.
Conclusão:
Os recentes resultados das seleções Sub-16 Masculinas e no Torneio Íscar Sub-14 confirmam um progresso na formação, fruto do trabalho consistente desenvolvido nomeadamente no Minibasquete e nos Sub-14.
Masculinos:
80-67 (-13) | 78-71 (-7)
Femininos:
66-55 (-11) | 81-55 (-26)
Há poucos anos, nas competições Sub-16 raramente disputávamos os lugares de subida, e em Íscar tínhamos dificuldades até para atravessar a linha de meio-campo ofensivo. Os resultados finais eram claramente desfavoráveis. Hoje, estamos consideravelmente mais próximos das melhores seleções nestes escalões, e isso é mais do que uma questão de marcador, é uma questão de qualidade e competitividade real.
Grande parte desta evolução deve-se à metodologia e ao empenho de treinadores como Rui Pedro (U14) , Diogo Santos (U14) e André Cardoso (U16), que tiveram a coragem de romper com fórmulas gastas e criar caminhos próprios. Inspirando-se no sucesso dos nossos vizinhos, deixaram de “ensinar jogadas” para ensinar a jogar. Implantaram uma nova mentalidade: fomentar a exploração e a inovação, incentivar o risco criativo e desenvolver nos jogadores a capacidade de sair da zona de conforto.
Os vídeos dos jogos confirmam esta transformação: o basquetebol exibido apresenta um nível e um estilo muito diferentes do habitual no panorama nacional, tanto no masculino como no feminino.
Links Masculinos :
U14M | ESPAÑA ROJO.PORTUGAL Masculino (19:15h)
Como bem afirma o Professor Jorge Araújo:
“No fim, o que permanece não são apenas vitórias ou derrotas, mas a capacidade de cada jogador ler o campo e encontrar, no instante certo, a melhor resposta. O treinador de valor experimenta, erra, ajusta e evolui, criando hábitos e automatismos através de um processo contínuo de tentativa e erro até alcançar o sucesso. O basquetebol português não precisa de ‘mais um’ treinador, mas de líderes disponíveis para servir a modalidade, e não para a utilizar como um meio ao serviço dos próprios interesses.”
A participação no Torneio Íscar confirma, na prática, esta visão: quando se aposta numa filosofia de jogo que privilegia leitura, criatividade e adaptabilidade, os resultados aproximam-nos das grandes potências.
Este é o perfil de treinador que o Professor Jorge Araújo descreve, líderes que formam jogadores pensantes, preparados para responder aos desafios do jogo com inteligência e audácia. É um caminho exigente, mas que prova que a evolução é possível quando se treina não apenas o corpo, mas também a mente e a tomada de decisão.
Bibliografia :
Araújo, J. (2025). O treinador que o basquetebol português precisa.
Cánovas Valero, A. (2024, 12 de janeiro). El bloqueo directo en minibasket. Jugar por jugar - Basketblog. https://acanovasvalero.blogspot.com/2024/01/el-bloqueo-directo-en-minibasket.html#more
Cooper, C. (Host), & Carlisle, R. (Guest). (2025, 13 de agosto). Defining random offense: How the Pacers play without plays – w/ Rick Carlisle [Vídeo]. YouTube.
Robez. (2025, 7 de agosto). Desarrollo 4-1 en minibasket. 2sesenta. https://2sesenta.com/desarrollo-4-1-minibasket/





